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Cirurgia simples é a saída para o suor excessivo

Hiper-hidrose atinge cerca de 1% da população. Problema, mais freqüentes nos pés, mão e axilas, traz desconforto e constrangimento
Jornal São Paulo Agora / 30 de novembro de 2003.

Por Fábio Grellet

Já imaginou não conseguir assinar um cheque sem molhá-lo de suor? Não poder usar chinelo ou sandália porque o pé escorrega? E evitar o uso de roupas que não sejam brancas porque elas evidenciam as manchas de suor?

Tudo isso pode parecer estranho, mas é uma realidade para as pessoas vítimas da hiper-hidrose, doença que causa suor excessivo – em geral nas mãos, pés e axilas.
Para a empresária Regina Diehl, 33 anos, histórias como essa faziam parte do dia-a-dia. “Cheguei a rezar pedindo a Deus que, em vez de permitir que eu vivesse 80 anos com essa doença, deixasse-me viver só 40, mas sem ela”, diz.
Para alívio dela – e de 1% da população mundial, que estima-se ser vítima da doença – a hiper-hidrose já pode ser solucionada de forma relativamente simples, por meio de uma cirurgia. Há dios anos, Regina está curada.

 

Medo de se expor

A hiper-hidrose é uma doença benigna – com a qual o paciente pode conviver a vida inteira, sem perigo de morte. Mas os prejuízos psicológicos são grandes. “As pessoas ficam envergonhadas e não querem mais sair de casa, com medo de se expor”, conta o cirurgião vascular Paulo Kauffman. Médico do Hospital das Clínicas, ele é um dos fundadores da Clínica do Suor, especializada em combater a doença e situada na capital.

Em geral, a hiper-hidrose se manifesta desde o nascimento. “Meus pais diziam que já no berço eu ficava molhada de suor”, afirma Regina.
A causa da doença é genética. Para quem é portador, o excesso de suor independe do clima e da situação. Embora o problema se agrave quando o doente está nervoso, ele sua toda hora. “Só cumprimentava as pessoas com beijos. Morria de vergonha de dar a mão, pois elas estavam sempre frias e molhadas”, recorda-se a empresária.
Na adolescência, com as mudanças hormonais, o problema costuma aumentar. Por isso, atualmente, as vítimas da doença são submetidas à cirurgia ainda na infância.
Não foi o caso de Regina, que chegou a consultar médicos até na Europa, tentando diagnosticar sua doença. “A maioria desconhecia a hiper-hidrose. Nem imaginava como combatê-la”, conta. Ela recorreu até ao misticismo. “Consultei curandeiros, mas também não adiantou”.
Há dois anos, Regina leu uma reportagem sobre a doença, consultou um médico e se submeteu à cirurgia. “Nasci de novo”, resume. Depois, escreveu um livro “Suando em Bicas”, em que ela relata a própria experiência e depoimentos de mais de 70 vítimas da doença. A obra será lançada em março, pela editora Nobel.

 

Com operação, barriga sua mais

Se ter a hiper-hidrose diagnosticada pode ser difícil – pacientes se queixam de médicos que não a conhecem – tratá-la era bem complicado até poucos anos atrás.
A cirurgia exigia cortes um pouco grandes e, em geral, produzia um efeito colateral sério: a queda da pálpebra – porque afetava um gânglio, situado no tórax, responsável por segurar a estrutura ocular.
Hoje, as técnicas se modernizaram e já não causam esse problema. O corte necessário é quase imperceptível, e bastam três dias para que a pessoa volte à rotina normal. Mas ainda um efeito colateral: o paciente passa a suar mais em outras partes do corpo – em geral, na barriga e nas costas. Apesar disso, a cirurgia ainda é a melhor solução.
Os tratamentos clínicos possíveis – aplicação de botox ou uma técnica chamada iontoforese, que usa uma máquina de emitir choques – têm resultados parciais e temporários.

 

Fala Doutor!
A solução definitiva

A produção de suor pelas glândulas sudoríparas depende de estímulo do sistema nervoso. Para aqueles que transpiram excessivamente, a simpatectomia – retirada do sistema nervoso simpático – é o único tratamento definitivo.
No caso de hiper-hidrose palmar (nas mãos), axilar (nas axilas) e crâni-facial (na cabeça e no rosto), realiza-se a simpatectomia torácica – feita por via endocoscópica, com o auxílio de equipamento de vídeo, por meio de duas pequenas incisões, de 1 cm, de ambos os lados do peito, sendo uma na região da axila e outra no sulco inferior da mama. A operação é realizada sob anestesia geral e, após a introdução de uma minicâmera de televisão dentro do tórax, a cadeia simpática é claramente visualizada e seccionada sobre as costelas.
Com essa operação que dura cerca de 15 minutos de cada lado, o resultado é imediato: quando o paciente acorda, já está com as mãos, as axilas e o rosto secos. Muitos pacientes citam também a melhora da hiper-hidrose nos pés. O paciente pode sair do hospital no mesmo dia ou no seguinte e voltar às suas atividades habituais, em média, três dias depois.
O principal inconveniente da operação é a chamada hiper-hidrose compensatória, que geralmente ocorre no tronco e tem intensidade variável e imprevisível. O corre o aumento de suor no abdome e nas costas, particularmente em ambientes aquecidos e após exercícios físicos. Apesar desse inconveniente, a grande maioria dos pacientes se diz bastante satisfeita com a operação.